Os pré-fabricados perderam o estigma de sistema construtivo para galpões e de serem pouco versáteis arquitetonicamente. Evoluiu na estética, desenvolveu acabamentos mais suaves, peças para composição com outros sistemas e melhores encaixes.
Superar, entretanto, o senso comum de que o pré-fabricado é caro, sem levar em conta seus benefícios, ainda é um grande desafio do setor. “É preciso avaliar se o pré-fabricado, para um determinado custo, representa um incremento tecnológico ou, ainda, se agrega valor à edificação”, explica Marcelo Ferreira, professor do Programa de Pós-Graduação em Construção Civil da UFScar (Universidade Federal de São Carlos). Os pré-fabricados possibilitam também controle mais fácil da produção com nenhum ou pouco desperdício. Devemos acrescentar à lista de “virtudes” possibilitar prazos de obra mínimos e qualidade assegurada no recebimento do produto.
A cultura do pouco detalhamento de projetos no País também é um problema, e maior no caso dos pré-fabricados. Projetos incompletos durante a contratação da fábrica acabam prejudicando o desempenho do sistema, pois dificultam não só a compatibilização, mas a própria escolha da estrutura mais adequada à obra. “A especificação das peças da estrutura pré-fabricada deve ser mais minuciosa que das estruturas convencionais, pois cada peça deve ser detalhada para fabricação e sua aplicação considerada no desenho de montagem”, explica o engenheiro José Zamarion Diniz, da Zamarion e Millen Consultores.
Basicamente, os tipos de estruturas são agrupados nos sistemas em esqueleto (lajes, vigas e pilares), em painéis estruturais e em mistos (esqueleto e painéis). Os sistemas estruturais mais utilizados no Brasil são em esqueleto. Já os sistemas em painéis estruturais são mais populares no norte europeu, como Alemanha e Grã-Bretanha, inclusive para edifícios de múltiplos pavimentos, ou ainda na Ásia, onde se encontram edifícios de até 27 pavimentos feitos de painéis estruturais.
Do ponto de vista do sistema construtivo, as estruturas pré-fabricadas são agrupadas em sistemas de ciclo fechado, aberto e flexibilizado. Os de ciclo fechado são padronizados e possibilitam a redução dos custos de projeto e de produção, mas possuem pouca flexibilidade arquitetônica. Os sistemas modulados para galpões industriais são os maiores exemplos de aplicação. Os sistemas de ciclo aberto são caracterizados pelo mercado de elementos padronizados. Caso, por exemplo, dos painéis alveolares protendidos, que podem ser empregados tanto para a composição de pisos como para elementos de fachada, sendo integrados com diferentes tecnologias construtivas, pré-fabricadas ou convencionais. Nos sistemas flexibilizados, os elementos pré-moldados podem ser projetados exclusivamente pata uma determinada obra, mas nesse caso é importante a padronização das soluções tecnológicas, como acontece com as ligações. Nesses sistemas há total flexibilidade na forma dos elementos, possibilitando a composição de qualquer tipologia arquitetônica. O inconveniente, nesse caso, é o aumento no custo do projeto e da produção.
NBR 8681 – Ações e segurança nas estruturas - Procedimento
NBR 6118 – Projeto de estrutura de concreto - Procedimento
NBR 9062 – Projeto e execução de estrutura de concreto pré-moldado (em revisão)
NBR 14931 – Execução de estrutura de concreto - Procedimento
NBR 12655 – Concreto – Preparo, controle e recebimento - Procedimento
NBR 14859-1 – Laje pré-fabricada – Requisitos Parte 1: Lajes unidirecionais
NBR 14859-2 – Laje pré-fabricada – Requisitos Parte 2: Lajes bidirecionais
NBR 14860-1 – Laje pré-fabricada – Pré-laje, Requisitos Parte 1: Lajes unidirecionais
NBR 14860-2 – Laje pré-fabricada – Pré-laje, Requisitos Parte 2: Lajes bidirecionais
NBR 14861 – Laje pré-fabricada – Painel alveolar de concreto protendido - Requisitos
NBR 14862 – Armadura treliçadas eletrossoldadas - Requisitos
Lei da compensação
Os pré-fabricados sempre foram sinônimo de obras rápidas, mas existem diferenças de velocidade entre os sistemas que influenciam, em termos de projeto e de produção, o processo global da construção. A perda de flexibilidade arquitetônica, no caso dos sistemas fechados, por exemplo, é compensada não só quando há pouco tempo para o projeto mas também porque a produção já está estruturada, reduzindo bastante os custos. Caso comum nos sistemas pré-fabricados para galpões de uso múltiplo, que são bastante competitivos.
Já os elementos pré-fabricados de ciclo aberto possuem o maior potencial de mercado, na opinião de Ferreira, pois podem ser integrados com qualquer tipo de construção. “Creio que os elementos de maior possibilidade de aplicação são os de piso que também podem ser aplicados como vedação”, diz Marcelo Ferreira. “No momento, temos os painéis alveolares e os painéis PI (duplo T)”, explica.
Os sistemas flexibilizados demandam maior tempo de projeto e de produção e só se tornam viáveis quando agregam valor para a construção. Essa compensação pode ocorrer por meio do aumento do desempenho da obra pré-fabricada ou, ainda, quando se tem elementos estruturais com função arquitetônica, como no caso do uso de concretos arquitetônicos.
No caso específico dos pilares pré-moldados necessita-se de um dimensionamento bem superior do que ocorre no caso das estruturas moldados no local. “Isso ocorre por causa das solicitações adicionais nas situações transitórias, na fabricação e na montagem, mas também porque as ligações mais flexíveis nas estruturas pré-moldadas isostáticas fazem com que os pilares assumam maior responsabilidade estrutural com relação às ações laterais”, explica Ferreira. Uma forma de otimizar o projeto, principalmente no caso de galpões onde a ação de vento é crítica, é a utilização da protensão com o objetivo de diminuir as armaduras.
Check-list
Veja se a obra necessita de uma solução sob medida
Veja se isso acarretará aumento de custo
Verifique a qualificação da equipe de projeto e a produção na fábrica
Procure empresas que possuam certificação de qualidade e que forneçam boa documentação desde a fabricação
Verifique se a execução está sendo assessorada por um responsável técnico da empresa
Se a fundação não fizer parte do escopo da fábrica e um terceiro for contratado para executá-la, verifique o controle dessa interface
Confira se o planejamento logístico e as recomendações específicas de montagem das peças, previstos em projeto, estão sendo seguidos
Avalie o aspecto visual das peças, acabamento, regularidade dimensional, ligações e demais serviços complementares
Pontos críticos
As estruturas devem sempre ser utilizadas de acordo com o que foi projetado. Segundo a ABCIC (Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto), o projetista estrutural deve ser consultado no caso de sobrecargas não previstas no projeto e para orientar a respeito de como proceder para a produção da estrutura no caso do uso de produtos agressivos como gases, ácidos e galvanizações.
A integração entre projeto, produção, transporte e montagem no canteiro é fundamental em todo o processo para garantir o máximo desempenho das estruturas, minimizando inclusive, patologias, que estão usualmente ligadas a falhas de projeto e de execução. “Em ambientes agressivos, classes III e IV da NBR 6118, o cobrimento inadequado é fonte de patologias devido às corrosão do aço da armadura”, cita Diniz, que alerta para a necessidade dos cuidados previstos nas normas NBR 6118, NB 9062 e NBR 14931.
Outro fator de incidência de patologias está em não considerar os esforços provenientes da variação volumétrica (temperatura, retração e fluência), principalmente nas estruturas com articulações fixas, fator principal da causa de fissuras, trincas e mesmo rupturas localizadas nos apoios. Isso porque os pontos mais críticos das estruturas pré-moldadas estão na execução das ligações entre as peças.
Embora as estruturas pré-fabricadas apresentem melhor controle tecnológico do concreto bem como da produção, a qualidade dos produtos depende muito do fabricante. Para assegurar a garantia da qualidade das peças, a ABCIC criou recentemente um sistema de certificação, no qual o fornecedor passa por auditorias freqüentes. A instituição informa que além da exigência do selo de qualidade, o construtor pode pedir outras documentações que englobam o mapeamento dos elementos desde a sua fabricação até a sua montagem na posição definitiva.
Fonte: Revista Construção Mercado nº49